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Vermelho

Fraternidade



Domingo, 12.03.17

Logan ou a morte de Wolverine

A transição do universo Marvel do seu ambiente originário na banda desenhada para o cinema é um dos fenómenos mais interessantes da modernidade ficcional. De entre os seus vários aspetos fascinantes está o desafio de conseguir condensar uma escala brutal - as dezenas de publicações semanais - com uma mais modesta escala - o lançamento de dois ou três filmes por ano (ainda assim uma cadência cinematográfica inimaginável há apenas 10 anos).

 

Pode dizer-se que este desafio e o modo como a Marvel a ele tem respondido são a chave para percebermos Logan.

 

Logan não é simplesmente o terceiro Wolverine. Mas também é o terceiro Wolverine. E talvez não seja mau começarmos a nossa interpretação por aí. O primeiro Wolverine (2009) é mau. Tão mau, que já mal me lembro da história. A única coisa boa que recordo do filme é a tentiva de trazer para o grande ecrã a história e a personagem da Silverfox. Mas mesmo a este respeito destaca-se já o traço que melhor descreve o que a Marvel faz na transição das suas bandas desenhadas para o cinema: manipulação genética. Não me lembro da última vez que vi um filme da Marvel cujos personagens e história sejam fiéis à história que conheço das bandas desenhadas. Talvez a questão mais importante seja: devo ter essa expectativa?

 

A Marvel Studios está no negócio de fazer filmes, cujo público não é, nem de perto, nem de longe, o o mesmo público das bandas desenhadas. A fauna do multiplex apenas tangencialmente toca no povo dos livros. A banda desenhada exige uma dedicação e um geekismo que não está ao alcance da escala massiva do cinema. A não ser que a Marvel se dedicasse a fazer filmes de culto, exclusivamente para os seus leitores. Mas a Marvel Studios também está no negócio de fazer dinheiro. 

Atenção, não estou a querer dizer que a banda desenhada não é um fenómeno de massas (já foi mais, no sentido sociológico do termo) mas que para se poder entrar verdadeiramente no Universo Marvel a exigência de empenho e compromisso é muito maior do que aquela que o cinema, mesmo através de séries de filmes, exige. E a Marvel sabe isso. Daí que tenha vindo a tentar refinar a arte de agradar a gregos e a troianos. 

 

É preciso fazer filmes para os leitores de banda desenhada e é preciso fazer filmes para todos os outros, que simplesmente conhecem da cultura popular várias das personagens da Marvel (isto inclui críticos de cinema). Só por si esta tarefa já seria difícil, mas há um outro desafio, mais subtil, e talvez ainda mais difícil. A Marvel tem hoje que conciliar diferentes gerações de leitores de banda desenhada, com distintas mundividências, gostos e expectativas. A saga Wolverine reflecte esse desafio. 

 

James Howlett, aliás, Logan, mais tarde Wolverine, nasceu como personagem em 1974. Para a Marvel é até uma jovem personagem (muitos são do tempo da II Guerra Mundial ou anteriores), mas atravessa já várias gerações, incluindo os Millennials com que a Marvel anda às voltas, sobretudo com os seus filmes. Entre as gerações X e Y há muitas diferenças e elas podem bem resumir-se, no interior da Marvel, à sucessão de Logan por Laura. E ao modo como, matando Logan, se deu vivas a Logan. 

É, isto é tudo um pouco complicado. 

 

Até à morte de Wolverine na banda desenhada, em 2014 (que nada tem que ver com a morte de Wolverine no Logan de 2017), o melhor-a-fazer-o-que-ele-faz tinha permitido várias inspirações, cópias, reproduções e clonagens, mas mantinha-se central no Universo Marvel, detendo vários motivos de orgulho, como aguentar-se (mais ou menos) numa batalha com o Hulk e ser o único a perceber a ilusão do mundo durante o delírio cósmico da Scarlet Witch em House of M. Mas com a morte de Logan/Wolverine, a Marvel decidiu entregar o manto a Laura Kinney, que havia surgido em 2003 (na televisão, curiosamente) como X-23. Hoje, se quisermos comprar uma banda desenhada da personagem Wolverine (All-New Wolverine, lançada em 2015) quem lá encontraremos é Laura Kinney. 

Morreu, pois, Logan? Não. A Marvel resgatou-o a partir de um Universo Alternativo (Earth-807128) onde ele já existia como "Old Man Logan", de Mark Millar. Muitos acharão estranhamente familiar o enquadramento deste universo alternativo para o qual um velho Logan foi enviado: os super-heróis perderam para os super-vilões, os mutantes estão quase todos dizimados e enlouquecidos e Logan tornou-se uma espécie de eremita. Pois é, Mark Millar inventou e escreveu "Wanted", que já deu um filme (sofrível) com James McAvoy, Angelina Jolie e Morgan Freeman, e que tem exatamente esta premissa. 

Neste momento temos Laura Kinney como a nova Wolverine e Logan (como velho Logan) importado para o Universo Marvel principal e a fazer parte integrante dos X-Men que todos conhecem (quem quiser acompanhar este Logan trazido do universo alternativo para o principal pode fazê-lo na série "Old Man Logan" de Mark Millar e Steve McNiven, que começou a ser publicada há pouco mais de um ano).

 

É, isto é realmente um pouco complicado. E até estou a simplificar. Apenas o suficiente para terem a ideia de como tudo isto é difícil de trazer para um filme de duas horas. Quem já viu o filme Logan e conheça um pouco das histórias que aqui descrevi, terá percebido que o filme é uma reinvenção, quer da personagem Laura Kinney, quer de Old Man Logan, mas feita à margem do Universo da banda desenhada. Cá estão os gregos e os troianos. 

 

Eu sou claramente grego e por muito que goste de X-23, agora a nova Wolverine, gosto do que a Marvel fez na banda desenhada (mesmo se isso significou matar o Logan/Wolverine) e gosto pouco desta morte de Logan, deixando em aberto uma passagem de testemunho para uma X-23 sobrevivente de um mundo sem mutantes. É um história alternativa que me parece fraca, que talvez seja interessante para os não fãs e conhecedores da Marvel, por ser mais adulta e séria do que é normal encontrar nos seus filmes, mas que fica muito aquém da complexidade a que a Marvel nos habitua no seu universo escrito e desenhado. E assim voltamos ao desafio inicial, agora com a sensação de que, apesar de tudo, está a ganhar o grupo composto por aqueles que vão ao cinema ver um filme suavemente baseado em personagens que conhecem de estampas de t-shirts e canecas de café. Há algo de errado com isto? Acho que não. Assim como não há nada de errado com envelhecer e morrer. É só genericamente chato.

 

Dito tudo isto (e isto tudo é fundamental), Logan é também melhor que o segundo Wolverine (2013), esse já realizado por Mangold, que volta agora para este terceiro filme. Não era difícil, uma vez que embora melhor do que o primeiro, é também bastante fraco, novamente com um problema complicado de desenvolvimento de história que consegue não agradar nem a gregos nem a troianos. Melhorou algo em Logan? Terá Mangold aprendido alguma lição?

 

A melhor coisa de Logan é o trailer. E só não estou completamente certo de que seja por causa de Johnny Cash porque Sir Patrick Stewart está ótimo. Depois vê-se o filme e, embora as três personagens principais estejam ótimas - grande Jackman, Stewart e Keen - há qualquer coisa que não bate certo. Ao fim de uns minutos finalmente percebo: Logan é um filme que assume completamente o universo Marvel Studios como um universo que só muito vagamente se assemelha ao Universo da banda desenhada. Um pouco como as coisas na Europa em Pulp Fiction: o universo cinematográfico da Marvel tem as mesmas coisas que o universo da banda desenhada, só que as do universo cinematográfico são um bocadinho diferentes, para citar Vincent Vega. Essa medida de diferença para mim funciona mal, mas para a generalidade dos troianos parece ser ótima, a julgar pelas recensões em locais reputados como o Guardian ou a Atlantic. Desde logo porque significa um filme que pode, de certo modo, começar do zero e, sobretudo a partir do contexto adulto de "Old Man Logan" assumir essa idade maior (mesmo e talvez porque uma das protagonistas é uma criança obrigada a crescer) e a tónica de passagem do testemunho. Mas fica por tratar muito da história que existe entre Logan e Laura, e assim a X-23 fica reduzida a uma espécie de desculpa para a morte do primeiro Wolverine. É certo que o filme se chama Logan e não Laura, e talvez a Marvel venha a explorar a vida da nova Wolverine, mas o que vemos em Logan não augura nada de bom.

 

É possível que este texto seja apenas um lamento de quem acha maltratado todo o sub-universo Wolverine, que venho acompanhando há 25 anos. É o mais certo. Old Man Mingos? Talvez. Gostaria de ter visto Jackman/Logan com a mesma ferocidade deste filme a viver a história da banda desenhada em que finalmente o vemos morrer coberto de adamantium.

 

Num momento de lucidez amnésica, em que olho para Logan sem lastro, vejo belos atores, uma boa música, efeitos especiais contidos, um interessante futuro pós-mutantes, um festim de violência digna do Wolverine da banda desenhada, e uma relação assente em vários dos arquétipos junguianos que fazem qualquer obra de ficção interessante: pai/filha, vida/morte, bem/mal. 

Pensando bem, Logan, não és tu, sou eu.

 


 

 

 

(em estéreo com a noite americana)

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por Domingos Farinho às 12:37



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- A Suspensão de Eficácia dos Actos Administrativos em Acção Popular


(in Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Vol. XLII - N.º 2, 2001, Coimbra Editora);


- Em Terra de Ninguém - Da interrupção e suspensão de obras em terrenos expropriados - Ac. do STA de 24.10.2001, P.º 41624


(in Cadernos de Justiça Administrativa, n.º 49, Janeiro/Fevereiro, 2005, CEJUR - Centros de Estudos Jurídicos do Minho);


- As Regras do Recrutamento Parlamentar Partidário em Portugal


(in Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Vol. XLVI - N.º 1, 2005, Coimbra Editora);


- Intimidade da Vida Privada e Media no Ciberespaço, Coimbra, Almedina, 2006


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(in Estudos em Homenagem ao Professor Marcello Caetano, no Centenário do seu nascimento, Vol. I,Coimbra Editora, 2006);


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Breve comentário ao âmbito de aplicação do Código do Procedimento Administrativo, na versão resultante da proposta de revisão


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A propósito do recente Decreto-Lei n.º 138/2013, de 9 de Outubro: a escolha dos parceiros do Estado para prestações do Estado Social - em particular o caso das IPSS na área da saúde


(in e-pública - Revista Electrónica de Direito Público, n.º 1, Janeiro 2014);


O alargamento da jurisdição dos tribunais arbitrais

(in Gomes, Carla Amado; Neves, Ana Fernanda; e Serrão, Tiago, O anteprojecto da revisão do Código de Processo nos Tribunais Administrativos e do Estatuto dos Tribunais Administrativos e Fiscais em debate, Lisboa, AAFDL, 2014, p. 421 a 429)


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O âmbito de aplicação do novo Código do Procedimento Administrativo: regressar a Ítaca

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Seleção de administradores designados pelo Estado em fundações privadas com participação pública

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Interesse público e poder judicial

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As vantagens da arbitragem no contexto dos meios de resolução de conflitos administrativos

in Gomes, Carla Amado / Farinho, Domingos Soares/ Pedro, Ricardo (coord.) Arbitragem e Direito Público, Lisboa, AAFDL Editora, 2015, p. 485 a 502


A sociedade comercial como empresa social - breve ensaio prospetivo a partir do direito positivo português

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Global (normative) public interest and legitimacy: A comment on Gabriel Bibeau-Picard

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Empresa Social, Investimento Social e Responsabilidade pelo Impacto

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Regras especiais de contratação pública: os serviços sociais e outros serviços específicos

in Maria João Estorninho e Ana Gouveia Martins (coord.), Atas da Conferência - A Revisão do Código dos Contratos Públicos, Lisboa, Instituto de Ciências Jurídico-Políticas da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, pp. 81-98.


O tratamento de dados pessoais na prossecução do interessse público e o Regulamento Geral de Proteção de Dados: uma primeira abordagem

in Martins, Ana Gouveia et al. (ed.), “IX Encontro de Professores de Direito Público”, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2017, pp. 67-76


As políticas públicas de resolução alternativa de litígios: da alternatividade rumo à seleção apropriada

in Rodrigues, Maria de Lurdes et al. (ed.), “40 anos de políticas de justiça em Portugal”, Coimbra, Almedina, 2017, pp. 331-368


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Agradecimento

O fotograma que serve de fundo a este blog foi retirado do filme "Rouge", de Krzysztof Kieslowski, de 1994.


Ao Pedro Neves, da equipa dos Blogs Sapo, um agradecimento especial pela sua disponibilidade e ajuda.