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Fraternidade



Sábado, 28.05.11

Malick, o filósofo

 

Malick studied philosophy under Stanley Cavell at Harvard University, graduating summa cum laude and Phi Beta Kappa in 1965. He went on to Magdalen College, Oxford as a Rhodes Scholar. After a disagreement with his tutor, Gilbert Ryle, over his thesis on the concept of world in Kierkegaard, Heidegger, and Wittgenstein, Malick left Oxford without a doctorate degree (daqui).

 

Descobri a informação que podem ler na citação acima quando ainda não havia sequer wikipedia. Foi no final do anos 90, depois de The Thin Red Line me ter posto à procura de saber quem era aquele tal de Terrence Malick, que havia realizado um filme que rapidamente se tornou num dos filmes da minha vida. Every man fights his own war tornou-se o meu lema em muitas provas e provações íntimas. E, num site canadiano, comprei o mupi (sim, o mupi) do filme, que mandei emoldurar e que reina, discreto, na minha sala. Depois disso, em pouco meses, vi todos os filmes de Malick. O que se revelou fácil, pois só havia mais duas longas-metragens: o fabuloso Badlands, com um Martin Sheen e uma Sissy Spacek geniais; e o Days of Heaven, que acho ainda não ter absorvido completamente... Depois veio o New World, de que não gostei tanto, mas na escala de quem não gostou tanto da Capela Sistina como gostou Stonehenge.

 

Há cerca de ano e meio comprei o blu-ray de The Fountain, de Darren Aronofsky, filme incompreendido (mas este não é um texto sobre isso) e numa pesquisa que fiz depois de o rever, descobri este projecto de Malick. A total excitação.

 

Este também não é (ainda) um texto sobre The Tree of Life, o filme que mais me impressionou desde A History of Violence, e não é bem sobre Malick, mas sobre uma dimensão de Malick, aquela que me fascinou na Barreira Invisível e que depois fui descobrindo.

 

Carrego comigo a tristeza de não ser do tempo da licenciatura em Histórico-Filosóficas. Não é de estranhar que Direito tenha sido a minha terceira escolha. E foi a correcta. Há muita filosofia na prudência jurídica. Mas a paixão de adolescência pela filosofia manteve-se. Quando descobri que Malick era um Rodhes Scholar, de Harvard, cujo orientador em Oxford era Gilbert Ryle e cuja tese tinha como objecto Kirkegaard, Heidegger e Wittgenstein, pensei para mim "tinha que ser". E tem que ser.

 

Há um livrinho magnífico, que reúne as famosas 6 Conferências Charles Eliot Norton de Umberto Eco, sob o título Seis passeios pelos bosques da ficção. Para mim é uma espécie de Meditações dedicadas ao papel do leitor na criação da própria obra que lê. O princípio é aplicável a qualquer obra de arte: ela tem a forma final que as nossas próprias referências permitam (Anthony Lane, em recensão a Tree of Life, na New Yorker, aborda lateralmente este aspecto). Por exemplo, Umberto Eco escreve os seus romances por camadas, do policial, às referências eruditas obscuras, como já notei em vários textos e o recente Cemitério de Praga é exemplo. Malick filma tratados de filosofia.

 

Imaginemo-lo há décadas atrás, enviado pela mais prestigiada bolsa de estudos do mundo, a Rhodes Scholarship, a Oxford, com Gilbert Ryle como orientador, o mesmo do fascinante e provocador, The Concept of Mind. Depois, claro, aquela tríade olímpica, Kierkegaard, Heidegger e Wittgenstein. E, subitamente, sobretudo, a partir de Days of Heaven, parece que todos os seus filmes foram apenas pretextos para estudos de caso sobre o modo como a mente vê o mundo. Ou como o mundo é criado pela mente. E como tudo isto pode ser Deus ou a Natureza. É assim em The Thin Red Line, é assim em New World e é, magistralmente assim, em The Tree of Life. E lá está Ryle, com quem se zangou por causa das visões do mundo em Kirkegaard, Heidegger e Wittgenstein. E o deslumbramento com a criação. E toda a sua inquietude.

 

Mas se Malick não se doutorou em Oxford, foi mal que veio por bem: se não o fez em Days of Heaven ou em The Thin Red Line, creio que o júri de Cannes concordará comigo que o fez em The Tree of Life. Por muito cinema que exista nesse maravilhoso filme, o que está ali é filosofia pura. Da ontologia à estética. 

 

(em surround com a Noite Americana e o Jugular)

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por Domingos Farinho às 16:29


2 comentários

De J. a 20.09.2011 às 02:02

"Por muito cinema que exista nesse maravilhoso filme, o que está ali é filosofia pura." É caso para dizer que não "está bem ver o filme". É que isto é Goethe:

"Cinzenta, amigo, é toda a teoria,
E verde a árvore de ouro da vida."
(Fausto, uma história sobre "experimentar", "to experiment")

Uma crítica com uns poemas muito curiosos do sr. Malick.

http://reviewingtreeoflife.blogspot.com/

De Domingos Farinho a 20.09.2011 às 10:23

Cara/o J.,

conheço o blog que indica, excelente por sinal, para quem queira reflectir mais sobre o The Tree of Life. Contudo, confesso que não compreendo porque não estou a ver o filme. Diria mesmo que o seu comentário só confirma que o filme de Malick é um tratado de filosofia, entre outras coisas, claro.

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Trabalhos publicados

- A Suspensão de Eficácia dos Actos Administrativos em Acção Popular


(in Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Vol. XLII - N.º 2, 2001, Coimbra Editora);


- Em Terra de Ninguém - Da interrupção e suspensão de obras em terrenos expropriados - Ac. do STA de 24.10.2001, P.º 41624


(in Cadernos de Justiça Administrativa, n.º 49, Janeiro/Fevereiro, 2005, CEJUR - Centros de Estudos Jurídicos do Minho);


- As Regras do Recrutamento Parlamentar Partidário em Portugal


(in Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Vol. XLVI - N.º 1, 2005, Coimbra Editora);


- Intimidade da Vida Privada e Media no Ciberespaço, Coimbra, Almedina, 2006


- Para além do Bem e do Mal: as Fundações Público-Privadas


(in Estudos em Homenagem ao Professor Marcello Caetano, no Centenário do seu nascimento, Vol. I,Coimbra Editora, 2006);


- Todos têm direito à liberdade de imprensa? - a propósito do caso Apple v. Doe no Tribunal de Apelo do Estado da Califórnia


(in Jurisprudência Constitucional, n.º 12, Outubro-Dezembro, 2006, Coimbra Editora);


- O Direito Fundamental de Fundação - Portugal entre a Alemanha e a Espanha


(in Estudos em Homenagem ao Prof. Doutor Sérvulo Correia, Vol. I, Coimbra Editora, 2010);


- Alguns problemas de governo fundacional de uma perspectiva normativa-orgânica


(in O Governo das Organizações - A vocação universal do corporate governance, Coimbra, Almedina, 2011);


- As fundações como entidades adjudicantes


(in Revista dos Contratos Públicos, n.º 4, 2012);


- Brevíssimo balanço do regime jurídico das pessoas colectiva de utilidade pública: uma perspectiva fundacional


(in Estudos de Homenagem ao Prof. Doutor Jorge Miranda, Volume IV - Direito Administrativo e Justiça Administrativa, Coimbra, Coimbra Editora, 2012);


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(in Revista de Direito das Sociedades, Ano IV (2012), n.º 1, Coimbra, Almedina)


- Governo das Universidades Públicas (brevíssimo ensaio introdutório jurídico-normativo)


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Breve comentário ao âmbito de aplicação do Código do Procedimento Administrativo, na versão resultante da proposta de revisão


(in Direito&Política / Law&Politics, n.º 4, Julho-Outubro, 2013, Loures, Diário de Bordo)


A propósito do recente Decreto-Lei n.º 138/2013, de 9 de Outubro: a escolha dos parceiros do Estado para prestações do Estado Social - em particular o caso das IPSS na área da saúde


(in e-pública - Revista Electrónica de Direito Público, n.º 1, Janeiro 2014);


O alargamento da jurisdição dos tribunais arbitrais

(in Gomes, Carla Amado; Neves, Ana Fernanda; e Serrão, Tiago, O anteprojecto da revisão do Código de Processo nos Tribunais Administrativos e do Estatuto dos Tribunais Administrativos e Fiscais em debate, Lisboa, AAFDL, 2014, p. 421 a 429)


- Fundações e Interesse Público , Coimbra, Almedina, 2014


O âmbito de aplicação do novo Código do Procedimento Administrativo: regressar a Ítaca

(in Gomes, Carla Amado; Neves, Ana Fernanda; e Serrão, Tiago, Comentários ao Novo Código do Procedimento Administrativo, Lisboa, AAFDL, 2015, p. 121 a 150)


Seleção de administradores designados pelo Estado em fundações privadas com participação pública

(in Vários, A designação de administradores, Lisboa, Almedina, 2015, p. 345 a 365)


Interesse público e poder judicial

in Repolês, Maria Fernanda Salcedo e, Dias, Mariz Tereza Fonseca (org.), O Direito entre a Esfera Pública e a Autonomia Privada, Volume 2, Belo Horizonte, Editora Fórum, 2015;


As vantagens da arbitragem no contexto dos meios de resolução de conflitos administrativos

in Gomes, Carla Amado / Farinho, Domingos Soares/ Pedro, Ricardo (coord.) Arbitragem e Direito Público, Lisboa, AAFDL Editora, 2015, p. 485 a 502


A sociedade comercial como empresa social - breve ensaio prospetivo a partir do direito positivo português

in Revista de Direito das Sociedades, Ano VII (2015), n.º 2, Coimbra, Almedina, p. 247-270;


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(Un)Safe Harbour: Comentário à decisão do TJUE C-362/14 e suas consequências legais

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Empresa Social, Investimento Social e Responsabilidade pelo Impacto

in Impulso Positivo, n.º 31, janeiro/fevereiro 2016, pp. 42-43


A arbitragem e a mediação nos títulos de impacto social: antecipar o futuro

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Regras especiais de contratação pública: os serviços sociais e outros serviços específicos

in Maria João Estorninho e Ana Gouveia Martins (coord.), Atas da Conferência - A Revisão do Código dos Contratos Públicos, Lisboa, Instituto de Ciências Jurídico-Políticas da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, pp. 81-98.


O tratamento de dados pessoais na prossecução do interessse público e o Regulamento Geral de Proteção de Dados: uma primeira abordagem

in Martins, Ana Gouveia et al. (ed.), “IX Encontro de Professores de Direito Público”, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2017, pp. 67-76


As políticas públicas de resolução alternativa de litígios: da alternatividade rumo à seleção apropriada

in Rodrigues, Maria de Lurdes et al. (ed.), “40 anos de políticas de justiça em Portugal”, Coimbra, Almedina, 2017, pp. 331-368


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Agradecimento

O fotograma que serve de fundo a este blog foi retirado do filme "Rouge", de Krzysztof Kieslowski, de 1994.


Ao Pedro Neves, da equipa dos Blogs Sapo, um agradecimento especial pela sua disponibilidade e ajuda.