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Fraternidade



Sexta-feira, 01.06.12

Prometheus e a Concepção Inteligente

Como sabem, o Universo move-se de misteriosas maneiras e sucede que acabei de ler, há menos de uma semana, Secular Philosophy and the Religious Temperament : Essays 2002-2008, de Thomas Nagel.


Nagel, um dos grandes filósofos do nosso tempo, conseguiu enraivecer muitos ateus militantes e várias dezenas de cientistas (não necessariamente os mesmos), quando há uns anos recomendou, no Times Literary Supplement, um livro de Stephen Meyer, Signature in the cell, que defende uma variante do Creacionismo, denominado Concepção Inteligente (Intelligent Design). 


O problema dos críticos de Nagel, no que toca à recomendação do livro em questão, é que confundiram duas questões, que vários ensaios de Secular Philosophy and the Religious Temperament tratam de distinguir: acreditar que existe Deus e que foi ele que criou o Universo e nós incluídos; e acreditar que a vida está cientificamente ordenada através de uma vontade inteligente, mesmo que não se acredite em Deus. Para Nagel, esta dissociação é possível. 


Claro que estando envolvida na discussão uma possibilidade de ligação a Deus, há imediatamente uma espiral de loucura e excesso à volta dos argumentos utilizados de parte a parte. Nagel é a melhor excepção que encontrei até agora. Para mais, ele não é um crente.


Vem isto a propósito de Prometheus, o novo filme de Ridley Scott, quase a estrear nas salas portuguesas. Apesar de enquadrado pela saga Alien seria um erro pensar no filme como mais um capítulo, ainda que precedendo todos os outros. Há muito mais em jogo neste filme.


Claramente sugestionado pela leitura dos ensaios de Nagel, passei o filme todo num ping-pong entre, crença, evolução e concepção inteligente. O filme é, neste aspecto, brutalmente estimulante, porque mais do que tomar lados - as personagens fazem isso pelo filme - Prometheus coloca muito bem os problemas, sem complexos, nem dogmas. Mas ciente deles.


Do que se trata é de saber se a vida (ou apenas a vida humana?) foi surgindo por acasos motivados por mecanismos de sobrevivência, como defendem os seguidores de Darwin, ou se foi desenhada de acordo com uma inteligência superior, mesmo que não Deus, mas apenas um outro tipo de vida, suficientemente inteligente para nos criar a nós. Neste sentido, Prometheus complica ainda mais a discussão em curso e faz um belo trabalho pela função estimulante da arte sobre o pensamento.

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por Domingos Farinho às 18:09


3 comentários

De MCosta a 04.06.2012 às 15:28

Caro Domingos Farinho , os seguidores de Darwin é um conceito muito vago e está a incluir concepções sobre a evolução (porque é a isto que se refere, não é?) tão dispares como a de Darwin (selecção dos mais apto) até às de Maturana et al (deriva filogenética), passando por Gregory Bateson (Filho, não o pai) com a sua interessantíssima abordagem de Lamark e o seu erro epistemológico. Aviso que não sou especialista em evolução, mas li umas coisitas. falar de evolução, é muito mais que falar de selecção darwiniana. Se quer uma perspectiva diferente sobre a origem da vida, dê uma vista de olhos nos trabalhos de Humberto Maturana , Francisco Varela et cetera . Verá que existem outros caminhos, e estes dispensam a existência de explicações transcendentes ou creadores extra-terrestres.

Cumprimentos

De Domingos Farinho a 04.06.2012 às 21:54

Cara/o MCosta,

assumo que fui propositadamente genérico na minha utilização do termo "seguidores de Darwin", mas apenas porque no contexto do meu argumento pareceu-me fazer sentido. O que todos os evolucionistas têm em comum é partirem de Darwin para tentar demonstrar que a evolução por tentativa e erro é a única explicação para a nossa existência. Nesse sentido, opor-se-ão sempre a qualquer teoria científica que tente demonstrar que isso não é verdade, ou seja, que há uma ordem (inteligente) na evolução (o que é diferente de dizer que da evolução resultou vida inteligente, note-se). Creio que nisto podemos acordar. O meu argumento, que nem sequer é meu, é apenas um argumento com o qual estou tentado a concordar, oferecido por alguns autores - entre filósofos e biólogos por ex, é que essa explicação científica alternativa à ao evolucionismo darwiniano não tem que ser explicada necessariamente por Deus. É o argumento de Nagel e foi por isso que o invoquei em ligação ao filme de Scott.

Também não sou um especialista no assunto, como se pode perceber só por este blog, e o que estou aqui a defender e partilhar tem sobretudo que ver com alguma leituras que fiz e com reflexões pessoais. Estou sobretudo a pensar no Blindwatchmaker, Why Evolution is true, The plausibility of life e Living with Darwin. Mas assim que puder, vou tentar espreitar as suas sugestões.

Cumprimentos.

De MCosta a 11.06.2012 às 10:47

Agradeço a resposta, contudo permita-me um reparo epistemológico, e é o seguinte: considerar o conceito "ordem inteligente" é um erro epistémico, porque resulta de não assumir que é do âmbito do observador classificar como inteligente uma ordem, seja ela qual for. No domínio da evolução, a inteligência existe onde concretamente? Será que está a pensar no aumento de complexidade? Na emergência de comportamentos complexos? Nas dinâmicas adaptativas? Seja qual for a opção, quando classificamos a evolução do par organismo/nicho como "inteligente", isso não é sinal de inteligência , é "sinal" que deriva filogenética desse ser vivo emparelhada com o nicho é viável (tanto para o organismo como para o nicho), só isso. De outra forma, os crocodilos que já existiam no tempo dos dinossauros seriam os senhores da terra, o que não acontece. O mesmo se passa com o tubarões. Podemos referir que são predadores de topo dos nichos com que estão emparelhados, só isso.
Tente arranjar o PDF do livro The tree of Life " do Humberto Matura/Francisco Varela é o livro de introdução e o artigo La origem de las especies por medio de la deriva natural"-este, penso que o consegue no site www.inteco.cl , é procurar nos papers . Se achar interessante e se quiser avançar para algo mais "pesado" tente arranjar o "principles of biological autonomy " - ou sua tradução em francês: "autonomie et connaissance " do Francisco Varela (neste se fizer uma busca na amazon.com encontra muitas sugestões associadas a este titulo e a este tema)
E sem querer chatear mais, agradeço a resposta e queira aceitar os cumprimentos

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Trabalhos publicados

- A Suspensão de Eficácia dos Actos Administrativos em Acção Popular


(in Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Vol. XLII - N.º 2, 2001, Coimbra Editora);


- Em Terra de Ninguém - Da interrupção e suspensão de obras em terrenos expropriados - Ac. do STA de 24.10.2001, P.º 41624


(in Cadernos de Justiça Administrativa, n.º 49, Janeiro/Fevereiro, 2005, CEJUR - Centros de Estudos Jurídicos do Minho);


- As Regras do Recrutamento Parlamentar Partidário em Portugal


(in Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Vol. XLVI - N.º 1, 2005, Coimbra Editora);


- Intimidade da Vida Privada e Media no Ciberespaço, Coimbra, Almedina, 2006


- Para além do Bem e do Mal: as Fundações Público-Privadas


(in Estudos em Homenagem ao Professor Marcello Caetano, no Centenário do seu nascimento, Vol. I,Coimbra Editora, 2006);


- Todos têm direito à liberdade de imprensa? - a propósito do caso Apple v. Doe no Tribunal de Apelo do Estado da Califórnia


(in Jurisprudência Constitucional, n.º 12, Outubro-Dezembro, 2006, Coimbra Editora);


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(in Estudos de Homenagem ao Prof. Doutor Jorge Miranda, Volume IV - Direito Administrativo e Justiça Administrativa, Coimbra, Coimbra Editora, 2012);


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Breve comentário ao âmbito de aplicação do Código do Procedimento Administrativo, na versão resultante da proposta de revisão


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(in e-pública - Revista Electrónica de Direito Público, n.º 1, Janeiro 2014);


O alargamento da jurisdição dos tribunais arbitrais

(in Gomes, Carla Amado; Neves, Ana Fernanda; e Serrão, Tiago, O anteprojecto da revisão do Código de Processo nos Tribunais Administrativos e do Estatuto dos Tribunais Administrativos e Fiscais em debate, Lisboa, AAFDL, 2014, p. 421 a 429)


- Fundações e Interesse Público , Coimbra, Almedina, 2014


O âmbito de aplicação do novo Código do Procedimento Administrativo: regressar a Ítaca

(in Gomes, Carla Amado; Neves, Ana Fernanda; e Serrão, Tiago, Comentários ao Novo Código do Procedimento Administrativo, Lisboa, AAFDL, 2015, p. 121 a 150)


Seleção de administradores designados pelo Estado em fundações privadas com participação pública

(in Vários, A designação de administradores, Lisboa, Almedina, 2015, p. 345 a 365)


Interesse público e poder judicial

in Repolês, Maria Fernanda Salcedo e, Dias, Mariz Tereza Fonseca (org.), O Direito entre a Esfera Pública e a Autonomia Privada, Volume 2, Belo Horizonte, Editora Fórum, 2015;


As vantagens da arbitragem no contexto dos meios de resolução de conflitos administrativos

in Gomes, Carla Amado / Farinho, Domingos Soares/ Pedro, Ricardo (coord.) Arbitragem e Direito Público, Lisboa, AAFDL Editora, 2015, p. 485 a 502


A sociedade comercial como empresa social - breve ensaio prospetivo a partir do direito positivo português

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(Un)Safe Harbour: Comentário à decisão do TJUE C-362/14 e suas consequências legais

in Forum de Proteção de Dados, n.º 02, Janeiro 2016, p. 108-124


Empresa Social, Investimento Social e Responsabilidade pelo Impacto

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A arbitragem e a mediação nos títulos de impacto social: antecipar o futuro

in Arbitragem Administrativa, n.º 2, 2016, CAAD


Regras especiais de contratação pública: os serviços sociais e outros serviços específicos

in Maria João Estorninho e Ana Gouveia Martins (coord.), Atas da Conferência - A Revisão do Código dos Contratos Públicos, Lisboa, Instituto de Ciências Jurídico-Políticas da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, pp. 81-98.


O tratamento de dados pessoais na prossecução do interessse público e o Regulamento Geral de Proteção de Dados: uma primeira abordagem

in Martins, Ana Gouveia et al. (ed.), “IX Encontro de Professores de Direito Público”, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2017, pp. 67-76


As políticas públicas de resolução alternativa de litígios: da alternatividade rumo à seleção apropriada

in Rodrigues, Maria de Lurdes et al. (ed.), “40 anos de políticas de justiça em Portugal”, Coimbra, Almedina, 2017, pp. 331-368


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O fotograma que serve de fundo a este blog foi retirado do filme "Rouge", de Krzysztof Kieslowski, de 1994.


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